Colocou um anúncio nos classificados:
“Preciso de empregada doméstica, que goste de crianças, com
referências, para trabalhar meio turno.
Choveram ligações em seu celular.
Ela não esperava que fossem tantas! Ficou atônita... Não
conseguiria responder a todas as mensagens e ligações!
Selecionou várias, as mais necessitadas, as que pareciam
sofrer pela falta de dinheiro, de trabalho...
-Alô, é Maria?
- Sim.
- Oi, Maria. Você mandou uma mensagem referente ao anúncio
que publiquei no Jornal O Povo que Fala.
-Sim.
-Então, gostaria de saber se você tem referências e
experiência.
-Tenho sim e estou precisando muito do emprego. Tenho dois filhos e já estou com aviso de corte de
energia elétrica. Eu não tenho referências, mas tenho muita experiência em
serviços de casa... Só não sei passar camisa.
Ela achou graça e gostou da sinceridade de Maria em dizer
que não sabia passar camisas. Também ficou penalizada pela situação em que se
encontrava.
“Mas não tem referências...”
- Ok, Maria, vou ficar com seu número e retornarei a
ligação.
Embora penalizada, ela já sabia que não voltaria a ligar,
pois Maria não passava camisas, não demonstrara interesse em dizer “se me
ensinar, eu faço” e não tinha referências.
Voltou os olhos para os outros números e ligou para outra
pessoa.
-Olá! Gostaria de falar com Juce.
- É ela.
- Oi, Juce. . Você mandou uma mensagem referente ao anúncio
que publiquei no Jornal O Povo que Fala.
- Sim, estou muito interessada e precisando do serviço.
- Você tem experiência e referências?
- Sim. Trabalhei dois anos na casa do Dr. Müller.
- Hum... Poderíamos fazer uma experiência começando na
segunda?
- Sim, a senhora me passa o endereço que estarei aí na
segunda.
Passou o endereço, conversou demoradamente com Juce,
explicando sobre as atividades, falando do seu filho e dos filhos de Juce.
Desligou o telefone torcendo para ter feito a melhor e mais
justa escolha.
A segunda-feira chegou e ela já se despedia das férias que
terminariam em duas semanas.
Não achou necessário telefonar para o Dr. Müller para pedir
referências, afinal era um médico extremamente conhecido na região e não passou
pela sua cabeça que alguém o indicasse como referência sem ser referência.
Eram 8h30min e Juce ainda não havia chegado.
“Talvez seja o ônibus atrasando.” Pensou.
Às 9 horas, Juce chegou.
- Oi, Juce, achei que não vinha mais...
- Imagina... É que estou com muitas dores nas costas, mas
vim mesmo assim.
- Dores nas costas? Já foi ao médico? Será que vai conseguir
trabalhar?
- Tomei um remédio e já tá passando...
- Tem certeza?
- Sim!
Mostrou a casa para Juce, explicou, detalhadamente, o serviço
e apresentou seu filho de cinco anos.
As coisas pareciam bem, Juce demonstrava grande capricho ao
realizar as tarefas. Além disso, pareceu dar-se bem com a criança.
Segunda, terça, quarta e quinta, tudo andava bem. A nova
secretária do lar demonstrava interesse, capricho e não mais se atrasara.
A dona-de-casa estava feliz por ter contratado uma pessoa
que, apesar de no primeiro dia ter-se atrasado, demonstrava satisfação pelo
trabalho. Só havia um porém:
-Juce, você trouxe a carteira de trabalho para eu assinar?
- Ah, me esqueci de novo. Amanhã, eu trago.
- Juce, eu estou correndo risco em ter contratado você, mas
estar sem sua carteira assinada.
-Amanhã eu trago.
Na sexta-feira, Juce não apareceu e não telefonou para
qualquer aviso.
- Como ela não vem justamente hoje? Falei que o pagamento
seria semanal. Hoje ela receberia. Que estranho...
Tentou ligar, mas foi em vão... Juce não atendia.
-Meu Deus, começo a trabalhar daqui a uma semana e Juce não
aparece!
Fez o serviço da casa e levou o filho à escola.
Quando voltou, sozinha em casa, resolveu ligar para o Dr.
Müller para obter as tais referências.
Quem atendeu foi a senhora Müller. Ela apresentou-se e, em
seguida, pediu referências sobre Juce.
- Não estou lembrando desse nome, mas vou falar com a outra
empregada para ver se ela se lembra.
A senhora Müller tinha uma secretária do lar há mais de 10
anos, mas, às vezes, era preciso um reforço, então seria bem possível que Juce
tivesse passado por lá.
-Alô?
- Alô, senhora Müller...
- Não, aqui é Margarida.
- Você poderia dar referências sobre Juce?
- Ah, essa a Dona Müller não contratou mais porque ela
faltava muito. Mas era boa faxineira. Quando aparecia.
- Ela não trabalhou aí por dois anos?
- Hahaha bem que eu gostaria, mas ela simplesmente
desapareceu.
- Sabe se ela seria “de confiança”?
- Ah, não posso dizer, pois ela não tinha compromisso.
-Obrigada e desculpe o incômodo.
Desligou o telefone e ficou muito, mas muito aborrecida.
Por quê? Por que as pessoas mentem???
O que vou fazer com os compromissos que tenho? Quem vai
ficar com meu filho enquanto trabalho???
Como vou encontrar outra pessoa em apenas uma semana e
confiar?
No sábado de manhã, recebeu um sms de Juce dizendo:
“Eu não vou mais poder trabalhar na sua casa. Posso passar
aí hoje de tarde para acertar os dias que trabalhei?”
Ela sentiu muita raiva, mas disse que sim e pagou os dias
trabalhados sem nenhum questionamento.
Agora, tinha uma semana para tentar encontrar alguém que
fosse “de confiança”, tivesse referências e experiência, pois precisava voltar
ao trabalho em breve.
Continua...

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